O etarismo, ou preconceito com idade, deixou de ser um tema restrito à academia para se tornar pauta urgente no mercado de trabalho.
Quando falamos em etarismo no Brasil, falamos de práticas que discriminam pessoas por serem “velhas demais” ou “novas demais”, impedindo contratações, promoções e desenvolvimento. Em termos simples, etarismo significa negar oportunidades com base na idade, e não nas competências.
O tópico etarismo ganhou ainda mais visibilidade com a redação do Enem 2025, cujo tema foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, evidenciando o envelhecimento populacional e os desafios de uma sociedade que precisa aprender a conviver com diferentes gerações.
Esse debate, que começa na escola, chega diretamente às empresas, onde o preconceito com idoso e com jovens impacta contratações, clima e resultados.
Discutir o significado de etarismo, o etarismo no Brasil e intergeracionalidade é discutir o futuro das organizações.
RHs, lideranças e donos de empresas que ignoram o tema correm o risco de desconectar suas políticas do novo desenho demográfico do país, em que a população está mais velha, mais ativa e querendo permanecer no mercado de trabalho por mais tempo.
O etarismo, também chamado de ageísmo ou idadismo, é a discriminação baseada na idade. Ele pode atingir tanto pessoas idosas quanto jovens, mas, na prática, afeta principalmente quem tem 50+, muitas vezes excluídos de oportunidades profissionais, ou empurrados para a informalidade.
No contexto organizacional, o etarismo aparece em frases como “perfil muito sênior para a vaga”, “procuramos alguém com ‘energia mais jovem’” ou “ela é ótima, mas já está perto de se aposentar”. Do outro lado, jovens escutam que são “verdes demais para liderar” ou “não têm maturidade para assumir responsabilidades”, mesmo com desempenho consistente.
Em ambos os casos, o recado é o mesmo: a idade se sobrepõe às competências.
Para um RH que deseja ser estratégico, isso é um contrassenso, porque empobrece a gestão de pessoas, reduz diversidade de perspectivas e impede a construção de equipes verdadeiramente inovadoras.
O debate sobre etarismo no Brasil não acontece por acaso. O país vive uma transformação silenciosa na sua pirâmide etária. Entre 2000 e 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou, passando de 8,7% para 15,6% da população. Pela primeira vez, o IBGE registrou mais idosos do que jovens de 15 a 24 anos.
Essa realidade impacta consumo, políticas públicas e, diretamente, o mercado de trabalho. Ignorar o envelhecimento populacional é, na prática, planejar pessoas como se estivéssemos vivendo em outro país.
Ao mesmo tempo, cresce a participação de idosos na força de trabalho. Estudos apontam que o número de pessoas 60+ ocupadas aumentou cerca de 69% em 12 anos, chegando a aproximadamente 8,6 milhões de trabalhadores.
Porém, a informalidade entre essa população também é muito alta, ultrapassando 50% em algumas análises, o que indica dificuldades de inserção formal e possíveis efeitos do etarismo.
O preconceito com idade tem efeitos individuais e coletivos. Para as pessoas, significa sensação de desvalorização, queda de autoestima, adoecimento mental e perda de renda. Para o mercado, significa desperdício de talentos que poderiam contribuir com experiência, visão sistêmica e mentoria para as novas gerações.
Do ponto de vista organizacional, o etarismo se traduz em:
– Menor diversidade etária nas equipes, o que empobrece a criatividade e a inovação.
– Rotatividade maior, quando jovens não veem perspectivas de crescimento e profissionais maduros são descartados precocemente.
– Risco reputacional, em um contexto em que diversidade e inclusão são cada vez mais observadas por consumidores, investidores e candidatos.
Tribunais e órgãos públicos também têm chamado atenção para o tema. O Tribunal Superior do Trabalho (TST) aponta o preconceito etário como um “novo desafio do mercado de trabalho” e destaca que a colaboração entre gerações pode transformar a cultura organizacional.
Identificar o etarismo exige olhar crítico para práticas, discursos e decisões. Alguns sinais:
– Anúncios que mencionam “até X anos” ou “perfil jovem” sem justificativa técnica.
– Triagem automática que descarta currículos com mais tempo de mercado sem análise qualitativa.
– Profissionais 50+ sistematicamente preteridos em promoções, projetos estratégicos ou treinamentos.
– Jovens barrados em cargos de liderança com argumento genérico de “falta de maturidade”, mesmo entregando resultados.
– Piadas recorrentes sobre idade, aparência ou suposta dificuldade com tecnologia.
– Suposição de que idosos “não aprendem” ou de que jovens “não querem se comprometer”.
Quando essas práticas se tornam padrão, o etarismo deixa de ser um desvio pontual e passa a ser um componente da cultura – muitas vezes silencioso, mas profundamente excludente.
Do ponto de vista de governança, o etarismo deve ser tratado como qualquer outra forma de discriminação: com tolerância zero. Isso envolve:
– Ter políticas claras de diversidade e inclusão que incluam idade como um eixo explícito.
– Criar canais seguros de escuta e denúncia, onde colaboradores possam relatar situações de preconceito com idoso ou com jovens sem medo de retaliação.
– Investigar casos com seriedade, registrar evidências e realizar devolutivas transparentes.
– Promover ações formativas com lideranças para que entendam o que é etarismo, o que ele significa juridicamente e quais são seus impactos humanos e de negócio.
Para quem sofre etarismo, orienta-se registrar fatos, buscar apoio em instâncias internas (RH, compliance, lideranças de confiança) e, em casos mais graves, recorrer a sindicatos, órgãos de defesa de direitos e, quando necessário, à Justiça do Trabalho.
Combater o etarismo não é apenas “não discriminar”, mas promover inclusão etária ativa. Algumas iniciativas práticas:
– Eliminar critérios etários injustificados.
– Garantir comunicação acessível a diferentes faixas etárias.
– Treinar recrutadores para reconhecer vieses etários, tanto contra jovens quanto contra 50+.
– Combinar experiência e renovação, criando times com diversidade de idade.
– Implementar programas de mentoria reversa, nos quais jovens e seniors trocam conhecimentos (tecnologia, negócio, cultura).
– Programas específicos para jovens talentos, que ofereçam formação e perspectiva de crescimento.
– Trilhas de atualização, requalificação e longevidade produtiva para profissionais 40+ e 50+.
– Flexibilizar jornadas, formatos de trabalho e benefícios para acomodar diferentes necessidades de ciclo de vida.
– Reconhecer que envelhecimento populacional e longevidade exigem repensar carreiras em “fases” e não mais em linha reta única.
Para um RH verdadeiramente estratégico, olhar para etarismo no Brasil é olhar para a matriz de risco e oportunidade da própria organização. Ignorar o tema significa contratar, desenvolver e promover pessoas como se o país ainda tivesse uma pirâmide etária jovem – algo que os dados já mostraram que ficou no passado.
Ao conectar o debate da redação do Enem com a prática de gestão de pessoas, as empresas se aproximam de uma agenda contemporânea, que fala de direitos, produtividade, longevidade e inovação. Combater o etarismo é, ao mesmo tempo, uma questão de justiça social e de inteligência de negócios.
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